o tempo não é a cura prometida

o tempo não é a cura prometida

o tempo é um ensaio de uma vida sem plateia
crânio em cacos contra o asfalto
o tempo é um abutre à espreita dos meus dias
horda necrófaga à decompor o passado
o tempo é a cadeia trófica
matéria, abuso e trauma

Sísifo ao pé da montanha,
esculpindo na pedra uma lápide,
à espera de propósito
ou morte

colisão frontal ou crânio sob as rodas?

Atravesso a rua de olhos fechados,
Ensaiando o impacto do ônibus.
— Colisão frontal ou crânio sob as rodas?
Não me importo com a aparência do cadáver.
A matéria quente e pálida apodrecerá fria e suja.

Essas dúvidas surgem da covardia.
Hesitar e adiar é meu canivete suíço.
Percebo agora que só fecho os olhos em travessas e ruelas.
Apenas encaro as avenidas quando tudo está deserto.
O covarde precisa acreditar na própria farsa.

Atravessei a rua e todos os olhos eram ódio.
Meu corpo gordo era o calor que fugia do asfalto.
Cada esquina o cobrador me gritava: — “covardia!”.

[o sentido da vida é aquele percorrido pela linha metropolitana]

Eu conhecia todas as palavras

Eu conhecia todas as palavras,
até que me habituei aos grasnos
dos abutres perfilados
à espreita dos meus dias.

Hoje só conheço o som da relva,
a linguagem do cerrado
e a semiótica das pradarias.

E, por isso, rendo-me em gozo aos abutres,
por, enfim, fazer perene minha carne
em perpétua cadeia trófica
que só não herdará o meu cinismo.

o ponteiro do relógio da existência

o ponteiro do relógio da existência
cansou de ser apenas ponteiro
– queria ser o tempo, ele próprio.

(Pois o tempo é dimensão,
e a técnica de medi-lo é outra estória)

o tempo que passa e é percebido pelo ponteiro do relógio
é quiçá apenas comparação espacial de percepção neuronal.

mas o tempo, ele próprio,
se pauta pela angústia,
pela decadência das sociedades,
pela diferentes dores que sofrem os animais humanos e não humanos
e pela morbidez dos átomos que compõem qualquer matéria

A existência é única e comungada.
– a existência humana, dos ratos,
dos macacos, dos vermes e das bactérias –
todas elas uma só.

A milhões de anos-luz, a direita ou esquerda da terra,
sistemas conscientes talvez vivos ou não vivos
também questionam-se sobre diferentes
prováveis sistemas conscientes vivos ou não vivos.

Talvez providos de capacidade neuronal superior,
entendem o tempo metafísico como sendo físico –
e nele se deslocam através de máquinas
movidas a angústia ou qualquer outro metafisicismo.

e vislumbram a decadência dos diferentes povos
do nosso planeta e de muitos outros,
da espécie humana e das baratas.

(31/05/2015)

 

dê-me um sopro e um fim

dê-me um cancro ou cólera
dê-me um sopro e um fim
dê-me um instante que seja o último
e perfure-me com um objeto letal

permita-me sucumbir a qualquer doença
permita-me um fim dolor ou indolor
permita-me durar nem mais um segundo
permita-me ser cinzas numa lata de nescau

alforrie-me das diferentes dores cultivadas pelo homem
– as estúpidas crueldades inerentes à sua natureza –

e perfure meu crânio
com o projétil mais belo que houver

(06/10/2018)

a título de exemplo

Aprendi a assobiar mas não sei se prefiro minhas veias fechadas ou abertas.

Eu explico.

É que todo o pouco que sou soa como uma forjada pretensão – a título de exemplo, já ecoam estas linhas, que não são versos, mas versos se sentem. Como aquele que aprende assobiar, há quem aprenda entabular versos e creia que o universo lhe pinçou. E ao se perguntar sobre o porquê de ser o que é – mesmo que não o seja – e entender que é aquilo – que talvez não seja – por ter que haver um ser para cada o quê, surge a questão acerca daqueles que preferem as veias fechadas ou abertas.

O louco, o puro e o impossível

Aquele que existe, nem sempre vive.
Tampouco lhe é certo o prognóstico de dias serenos
e a coerência entre o que sentes 
e como és capaz de agir diante da própria loucura.

Existir é axiomático e independe dos elementos próprios do ato de viver, mas, apesar disso, permaneço avesso ao suicídio, pelo barato de fitar, com cinismo, o absurdo da falta de porquês. Perceber a própria existência de outra maneira é negar o vazio que deveras sentes, abafando o frenesi evidente do seu constante desassossego.

E eu continuo aqui pela razão de sempre: sou louco e sou lúcido.

Louco por navegar sem rumo.
Lúcido por saber que não há um rumo.

E não pretendo, como Sísifo, iludir-me em propósitos espúrios de pio desiderio.
Substabeleço aos cegos e ingênuos a lascívia de iludir-se em propósitos frágeis e inatos, aceitos pelas mentes tão ingênuas quanto os corpos puros que habitam.

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Dentre os propósitos que insisti,
todos me guiaram ao abismo,
a exótica imagem de um labirinto,
infinito e austero.

Não à toa as sombras me fascinam

Não à toa as sombras me fascinam:
sou a silhueta do vazio a projetar-se no abismo.

Sinto a ânsia pelo impossível,
transbordo a essência efervescente do absurdo
e esgueiro-me dos olhares pelos centros urbanos
evitando inutilmente o mal-estar de perceber-se humano.

(Não olhe nos meus olhos,
pois o mais breve e banal movimento de músculos extraoculares
é capaz de desmascarar minha essência corrompida
e comunicar ao mundo minha grande farsa)

Sou o espaço vazio a eleger-se matéria,
um obstáculo material às próprias inquietações,
uma existência precária que insiste em desejar
as narrativas impossíveis confabuladas pela civilização humana
sem que exista premissa metafísica que ofereça alento à ausência de sentido para os longos dias de suplício.

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E quando ao acaso por aí me encontrar,
poupe-me do terror das palavras cordiais,
poupe-me dos olhares condescendentes,
poupe-me do bom-dia mal ensaiado,
e não questione sobre conquistas passadas ou futuras,
pois seguirei a frustar e chorar.

as saídas foram lacradas

Inutilmente a civilização pretende-se alheia à substância humana,
entregando-se ao êxtase espúrio do senso de propósito ofertado pelas crenças religiosas,
como uma horda necrófaga sobre a carcaça do enigma do Universo,
ávida por uma pista que negue o silêncio absurdo que ecoa do abismo dentro de si.

o absurdo

Viver é constatar o absurdo do existir
e existir é perdurar a matéria através do tempo,
oferecendo às larvas a substância de si
– matéria é a substância que habita o espaço,
é existência desprovida de essência.

A vida é o arranjo da matéria perdurada em carcaça viva,
é a substância a traduzir a essência consciente da morte,
é a matéria a comungar o espaço e a existência com a carcaça da vida.

Viver é o ser da carcaça constituída de matéria:
existe eternamente a matéria,
existe a carcaça enquanto houver vida.

O viver não é mera constatação de essência ou metafísica,
é o absurdo do impossível a repetir-se,
é o fracasso da conservação de energia pelos sistemas de produção humanos,
é a energia potencial a dissipar-se por especulação fora de um sistema lógico,
é o indivíduo a rastejar-se pelas ruas e avenidas,
é a civilização a constranger-se pelas normas que impõe,
é a urgência por ser sublime e infalível,
é o cimento contra o peito
e o carbono da cidade.

(27/12/2018)

Os centros urbanos engolem as massas

Os centros urbanos engolem as massas
pelos túneis, edifícios, anéis viários
e repartições públicas de arquitetura brutalista,
que rangem a alma contra o concreto
e perfuram-na com colunas meramente decorativas.

As metrópoles atraem as massas
ofertando trabalho, sexo e dívidas,
e cospem-nas ao fim do dia
para que um novo dia amanheça,
pulverizando-se os sonhos
e tecendo as tragédias da vida moderna.

Mas a tragédia do cotidiano é apenas vestígio
da grande catástrofe da civilização humana
que jamais anunciaria-se nestes versos rasos.

a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)

Na casa antiga ao fim da rua, 

Na casa antiga ao fim da rua,
eu crescia e me reprimia
com sonhos que não eram meus
e inseguranças que ainda levo.

No quarto do segundo andar,
desde tão criança eu sofria
de ansiedade e depressão
e escondia doces no armário
pra quando a dor chegasse
não fosse maior fardo
que os quilos que ganhava.

Eu era criança angustiada e maníaca
com compulsão por simetria e comida
e me escondia dos olhares dos adultos
com medo de ser declarado impuro.

Na casa antiga ao fim da rua,
eu era criança maníaca
e a vista da janela
era uma piscina sempre vazia.

nem por isso o mundo parou

certamente nunca te contaram,
mas felicidade é tristeza com propósito
e tristeza é entender a mecânica da vida
e notar a grande náusea dos dias marginais.

tristeza é rascunho em branco,
com sentimentos a preencher

felicidade é preenchimento automático
ditado por ideais alheios, nunca os seus

observe: não estou a defender nenhuma causa,
mas sabes que os meio-sorrisos dos dias cinzas
contêm mais metafísica que os sorrisos abertos de euforia

e caso esteja pensando em apontar um paradoxo,
o paradoxo também te aponta,
e nem por isso o mundo parou
ou deixou de ter propósito
– ainda que triste.

eu não sei sorrir

eu não sei sorrir
mas eu sorrio
quando na rua me perguntam as horas
quando os carros param na faixa e eu atravesso
quando na padaria perguntam se quero mais algo

eu não sou feliz
mas há instantes em que posso jurar
que um poeta vai me convencer
que existe um sentido intrínseco nas coisas
e que essa equação se fechará sozinha

(15/10/2018)

Metáfora patética esta que os poetas fazem com as rosas.

Metáfora patética esta que os poetas fazem com as rosas,
Esta mania desavisada de insistir na metafísica das coisas.

A rosa: pétalas miúdas, caule raquítico.
Mas que por serem pétalas e caule,
e estarem embutidos de uma mecânica inerte de Xilema e Floema,
ainda era chamada de rosa e declarada viva,
e os afobados enxergavam nela um suspiro fatal que anunciava o fim de tudo.

Ah! Que mecânica inútil é esta que nos faz encontrar suspiro nas coisas?
Na planta, incansável mania de Xilema e Floema.
No homem, trabalho fadigado de glóbulos vermelhos,
brancos, azuis, amarelos e inúteis!

Eu não me importo.
Onde nisso encontro metafísica,
Senão apenas mecânica inerte que pulsa no peito de toda a gente?!

repare que a vida é memória, e memórias são mentiras

repare que a vida é memória,
e memórias são mentiras
contadas por nós mesmos,
na esperança de um sentido
para a anarquia da vida

repare que não há alma ou um pós-vida,
que a existência é um desvio padronizado
de átomos leigos e ineptos,
ignorantes de si – pois não há um si –

repare que, como a vida, ao fim dos dias não há luz,
como ao fim do túnel nas parábolas urbanas.

somos matéria e nada além
e a metafísica é um jogo
de distração e esquizofrenia
que jogamos sozinhos em conjunto

A náusea é um poema

A náusea é um poema
pregado muito fundo
com prego enferrujado:
como vacina de esperança,
lhe apresenta o mundo
mostrando o pior.

A civilização é uma estrofe,
que lhe causa vômito e enjoo,
como um grito de declame,
agudo, nunca findo,
que caduca muito estreita
entre o homem e o devaneio.

E entre estrofes há um universo:
a espera por um conforto que não virá;
as conquistas regredidas;
a esperança transformada em pó;
os segundos perdidos de uma vida;
o suspiro de desesperança;

Então na vida identifico o poeta:
músicos surdos,
pintores daltônicos,
escritores disléxicos,
floristas alérgicos;

E em cada um destes
me apego, me agarro,
tentando entender a náusea da civilização.

(10/11/2015)

atravessando ruas de olhos fechados

andava pelas ruas desejando o impacto dos ônibus
atravessando ruas de olhos fechados
e desejando meu último instante

hoje, algo mudou.
descobri que todos os instantes são os últimos
e sinto o impacto dos ônibus a cada segundo
com os olhos fechados ou abertos

e que não há saída para o mal-estar na civilização

decidi que quero viver

surpreendentemente, decidi que quero viver:
quero, apaixonadamente, viver.
viver os momentos intensamente,
ouvindo a voz de quem me conta uma história,
uma história épica ou uma história estúpida,
qualquer história me encantaria.

Ao mesmo tempo eu estaria confabulando planos,
planos possíveis e impossíveis,
planos pessoais, profissionais e oníricos.

Seria capaz de mudar o mundo:
ser voluntário na África,
doar sangue, medula e meu rim,
ir à Paulista ou Esquina Democrática protestar contra a mais recente injustiça
e oferecer água à todos os mendigos da Rua da República.

O que for que seja,
se eu pudesse sentir todos os dias o ânimo de agora,
este ânimo que já se foi,
eu mudaria tudo neste instante,
eu correria todo o perímetro terrestre só para impedir a mais simples injustiça

mas neste instante o cansaço retorna:
eu já desejo que um vírus elimine a espécie humana.
minha bondade deseja que este vírus não cause dor
e que ao menos este Armagedom não dure mais que um mês ou dois

planos, não há mais.
a vida se esconde atrás das paredes do meu quarto
e meu quarto é o mundo.

rostos ásperos são fáceis de se amar

rostos ásperos são fáceis de se amar:
a brutalidade é recebida de bom grado.
olhos perdidos são fáceis de se encontrar:
também estou perdido.

A tabacaria estava fechada quando precisei,
ainda que ao pé da porta houvesse um anúncio de “volto logo”.
Eu esperei.
observei os carros, o carbono, a pobreza e tristeza da Rua da República,
e a tabacaria estava novamente aberta.
Comprei um maço de marlboro blue ice.

Na rua, tudo era o mesmo e nada interessava.
os carros passavam e a abundância de árvores não tornava o dia menos quente.
a vida passava e os cigarros não preenchiam o vazio.

Um dia quente e uma tabacaria fechada é uma infeliz alegoria de tudo que sinto.
Ora, o incômodo dos dias quentes também sinto em todos os outros dias,
a tabacaria fechada é o desencontro mundano do meu próprio caminho.

Mas os rostos ásperos são fáceis de se amar:
o toque se impregna na memória como braile.
os olhos perdidos são fáceis de se encontrar:
distraídos, me encontram ao acaso.

a mais pura dinâmica da percepção da dor como distração

uma nova onda de mutilação instaura-se quando a consciência de si e de tudo convoca-se ao ápice.
a mais pura dinâmica da percepção da dor como distração, escapismo da realidade, é alcançada como conclusão lógica de qualquer ação do cotidiano.
explico.
quando repetidamente tanto se tenta, nada se consegue e tanto se perde, não há quaisquer razões lógicas ou metafísicas para persistir em sentir as dores mundanas dos acasos e rotinas mundanas.
por isso o sangue nos lençóis, por isso os curativos, por isso as desculpas.

as coxas cortadas excitam parte de meu cérebro que correntemente são dominadas pelo tédio;
os arranhões em meu rosto me permitem acordar e me apresentar de forma diferente da minha tediosa expressão de ontem;
o meu peito marcado de sangue sujeita-me a aceitar que em meu torso ainda funcionam complexos órgãos a despeito de todo tédio, sofrimento, renúncia e arbitrariedades;
as frestas em meus braços lembram-me que em minhas veias ainda pulsa sangue.

é difícil entender, mas tente
tente, por uma vez
tente desta vez

melancolia por um mês,
melancolia mais uma vez.
esquizofrenia aparente,

loucura consciente.