a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)

a porta e as dobradiças

observando a porta do meu quarto, percebi que suas dobradiças estavam enferrujadas por tantos anos terem passado sem que nenhum corpo ousasse tocá-la.

mas um dia a porta ainda seria aberta,
suas dobradiças dobrariam
a ferrugem dobraria
a porta dobraria
a maçaneta dobraria

alguém entraria

e verificaria
__________meu corpo já gelado
_______________observando as dobradiças
____________________da porta que abriria

sinto-me abraçado à hélices

Sinto-me abraçado à hélices,
que me rasgam, dilaceram,
e me dividem em pedaços
incontáveis e desprezíveis
acordando-me aos prantos
para outro dia.

Sinto-me abraçado à hélices,
que giram e rasgam,
e giram, me cortam,
espalhando meu sangue
nestas manchas do colchão

Histérico e inútil,
com perguntas sem sentido
declaro culpados todos os singulares instantes
que impetuosamente estão instalados
entre hoje e o suicídio

os instantes foram criados para serem sofridos
e por isso os sofro agarrado às hélices
que me rasgam, dilaceram,
me rasgam, me cortam

(30/10/2013)