colisão frontal ou crânio sob as rodas?

Atravesso a rua de olhos fechados,
Ensaiando o impacto do ônibus.
— Colisão frontal ou crânio sob as rodas?
Não me importo com a aparência do cadáver.
A matéria quente e pálida apodrecerá fria e suja.

Essas dúvidas surgem da covardia.
Hesitar e adiar é meu canivete suíço.
Percebo agora que só fecho os olhos em travessas e ruelas.
Apenas encaro as avenidas quando tudo está deserto.
O covarde precisa acreditar na própria farsa.

Atravessei a rua e todos os olhos eram ódio.
Meu corpo gordo era o calor que fugia do asfalto.
Cada esquina o cobrador me gritava “covardia!”.

[o sentido da vida é aquele percorrido pela linha metropolitana]

Eu conhecia todas as palavras

Eu conhecia todas as palavras,
até que me habituei aos grasnos
dos abutres perfilados
à espreita dos meus dias.

Hoje só conheço o som da relva,
a linguagem do cerrado
e a semiótica das pradarias.

E, por isso, rendo-me em gozo aos abutres,
por, enfim, fazer perene minha carne
em perpétua cadeia trófica
que só não herdará o meu cinismo.

Os centros urbanos engolem as massas

Os centros urbanos engolem as massas
pelos túneis, edifícios, anéis viários
e repartições públicas de arquitetura brutalista,
que rangem a alma contra o concreto
e perfuram-na com colunas meramente decorativas.

As metrópoles atraem as massas
ofertando trabalho, sexo e dívidas,
e cospem-nas ao fim do dia
para que um novo dia amanheça,
pulverizando-se os sonhos
e tecendo as tragédias da vida moderna.

Mas a tragédia do cotidiano é apenas vestígio
da grande catástrofe da civilização humana
que jamais anunciaria-se nestes versos rasos.

Na casa antiga ao fim da rua, 

Na casa antiga ao fim da rua,
eu crescia e me reprimia
com sonhos que não eram meus
e inseguranças que ainda levo.

No quarto do segundo andar,
desde tão criança eu sofria
de ansiedade e depressão
e escondia doces no armário
pra quando a dor chegasse
não fosse maior fardo
que os quilos que ganhava.

Eu era criança angustiada e maníaca
com compulsão por simetria e comida
e me escondia dos olhares dos adultos
com medo de ser declarado impuro.

Na casa antiga ao fim da rua,
eu era criança maníaca
e a vista da janela
era uma piscina sempre vazia.

Metáfora patética esta que os poetas fazem com as rosas.

Metáfora patética esta que os poetas fazem com as rosas,
Esta mania desavisada de insistir na metafísica das coisas.

A rosa: pétalas miúdas, caule raquítico.
Mas que por serem pétalas e caule,
e estarem embutidos de uma mecânica inerte de Xilema e Floema,
ainda era chamada de rosa e declarada viva,
e os afobados enxergavam nela um suspiro fatal que anunciava o fim de tudo.

Ah! Que mecânica inútil é esta que nos faz encontrar suspiro nas coisas?
Na planta, incansável mania de Xilema e Floema.
No homem, trabalho fadigado de glóbulos vermelhos,
brancos, azuis, amarelos e inúteis!

Eu não me importo.
Onde nisso encontro metafísica,
Senão apenas mecânica inerte que pulsa no peito de toda a gente?!

repare que a vida é memória, e memórias são mentiras

repare que a vida é memória,
e memórias são mentiras
contadas por nós mesmos,
na esperança de um sentido
para a anarquia da vida

repare que não há alma ou um pós-vida,
que a existência é um desvio padronizado
de átomos leigos e ineptos,
ignorantes de si – pois não há um si –

repare que, como a vida, ao fim dos dias não há luz,
como ao fim do túnel nas parábolas urbanas.

somos matéria e nada além
e a metafísica é um jogo
de distração e esquizofrenia
que jogamos sozinhos em conjunto

A náusea é um poema

A náusea é um poema
pregado muito fundo
com prego enferrujado:
como vacina de esperança,
lhe apresenta o mundo
mostrando o pior.

A civilização é uma estrofe,
que lhe causa vômito e enjoo,
como um grito de declame,
agudo, nunca findo,
que caduca muito estreita
entre o homem e o devaneio.

E entre estrofes há um universo:
a espera por um conforto que não virá;
as conquistas regredidas;
a esperança transformada em pó;
os segundos perdidos de uma vida;
o suspiro de desesperança;

Então na vida identifico o poeta:
músicos surdos,
pintores daltônicos,
escritores disléxicos,
floristas alérgicos;

E em cada um destes
me apego, me agarro,
tentando entender a náusea da civilização.

(10/11/2015)

atravessando ruas de olhos fechados

andava pelas ruas desejando o impacto dos ônibus
atravessando ruas de olhos fechados
e desejando meu último instante

hoje, algo mudou.
descobri que todos os instantes são os últimos
e sinto o impacto dos ônibus a cada segundo
com os olhos fechados ou abertos

e que não há saída para o mal-estar na civilização

decidi que quero viver

surpreendentemente, decidi que quero viver:
quero, apaixonadamente, viver.
viver os momentos intensamente,
ouvindo a voz de quem me conta uma história,
uma história épica ou uma história estúpida,
qualquer história me encantaria.

Ao mesmo tempo eu estaria confabulando planos,
planos possíveis e impossíveis,
planos pessoais, profissionais e oníricos.

Seria capaz de mudar o mundo:
ser voluntário na África,
doar sangue, medula e meu rim,
ir à Paulista ou Esquina Democrática protestar contra a mais recente injustiça
e oferecer água à todos os mendigos da Rua da República.

O que for que seja,
se eu pudesse sentir todos os dias o ânimo de agora,
este ânimo que já se foi,
eu mudaria tudo neste instante,
eu correria todo o perímetro terrestre só para impedir a mais simples injustiça

mas neste instante o cansaço retorna:
eu já desejo que um vírus elimine a espécie humana.
minha bondade deseja que este vírus não cause dor
e que ao menos este Armagedom não dure mais que um mês ou dois

planos, não há mais.
a vida se esconde atrás das paredes do meu quarto
e meu quarto é o mundo.

rostos ásperos são fáceis de se amar

rostos ásperos são fáceis de se amar:
a brutalidade é recebida de bom grado.
olhos perdidos são fáceis de se encontrar:
também estou perdido.

A tabacaria estava fechada quando precisei,
ainda que ao pé da porta houvesse um anúncio de “volto logo”.
Eu esperei.
observei os carros, o carbono, a pobreza e tristeza da Rua da República,
e a tabacaria estava novamente aberta.
Comprei um maço de marlboro blue ice.

Na rua, tudo era o mesmo e nada interessava.
os carros passavam e a abundância de árvores não tornava o dia menos quente.
a vida passava e os cigarros não preenchiam o vazio.

Um dia quente e uma tabacaria fechada é uma infeliz alegoria de tudo que sinto.
Ora, o incômodo dos dias quentes também sinto em todos os outros dias,
a tabacaria fechada é o desencontro mundano do meu próprio caminho.

Mas os rostos ásperos são fáceis de se amar:
o toque se impregna na memória como braile.
os olhos perdidos são fáceis de se encontrar:
distraídos, me encontram ao acaso.

a mais pura dinâmica da percepção da dor como distração

uma nova onda de mutilação instaura-se quando a consciência de si e de tudo convoca-se ao ápice.
a mais pura dinâmica da percepção da dor como distração, escapismo da realidade, é alcançada como conclusão lógica de qualquer ação do cotidiano.
explico.
quando repetidamente tanto se tenta, nada se consegue e tanto se perde, não há quaisquer razões lógicas ou metafísicas para persistir em sentir as dores mundanas dos acasos e rotinas mundanas.
por isso o sangue nos lençóis, por isso os curativos, por isso as desculpas.

as coxas cortadas excitam parte de meu cérebro que correntemente são dominadas pelo tédio;
os arranhões em meu rosto me permitem acordar e me apresentar de forma diferente da minha tediosa expressão de ontem;
o meu peito marcado de sangue sujeita-me a aceitar que em meu torso ainda funcionam complexos órgãos a despeito de todo tédio, sofrimento, renúncia e arbitrariedades;
as frestas em meus braços lembram-me que em minhas veias ainda pulsa sangue.

é difícil entender, mas tente
tente, por uma vez
tente desta vez

melancolia por um mês,
melancolia mais uma vez.
esquizofrenia aparente,

loucura consciente.

esquizofrenia por um mês, esquizofrenia mais uma vez

minha velha louca amiga
irmã da dor e da loucura
esquizofrenia por um mês
esquizofrenia mais uma vez

minha realidade única e depravada
meu pensamento confuso e nada claro
minha expressão social contida
meu desejo sexual impulsivo e reprimido

meu delírio que conspira
as câmeras escondidas
os vizinhos que observam
meus erros insignificantes

minha velha louca amiga
meu distúrbio social
comportamento fora do normal

esquizofrenia por um mês
esquizofrenia mais uma vez

(06/09/2017)

Chamo de lágrimas as gotas inúteis

Chamo de lágrimas
as gotas inúteis
que caem das nuvens
e afogam o céu.

E escorrem nos muros,
muros de pedra,
que separam espaços
que dividem abraços
que destroem os laços
e expõe os fracassos.

Sei que por vezes sonhas com relvas,
onde habitas cada espaço,
e todos os espaços são teus.

Mas os sonhos são poemas
escritos por criança,
interpretados com descrença,
esquecidos na dispensa.

E então o homem se fez fracasso:
inventou novos pecados,
fez dos semelhantes seus escravos,
sabotou seus próprios passos.


Não chores, meu rapaz,
tu és apenas réu primário
de um mundo precário
– o mundo é esperto,
nos tortura desde feto,
nos caduca até a morte,
sem nos dar a chance de ser forte.

Já devias saber que a vida é isso:
é viver pra querer morrer,
e morrer sem saber porque viveu.

(24/10/2015)

esta espécie de paixão

(06/07/2015, 04:41)

Ao rapaz bonito que entrava na sala, eu acenava. Acenava todos os dias. Acenava não com as mãos, mas com um embaraçoso movimento com a cabeça, que às vezes era acompanhado por um sorriso sem jeito. Meus olhos fitavam os dele por qualquer chance de contato visual – que nunca ocorria. E a cada aceno ignorado, eu me apaixonava.

É verdade, nunca nos falamos. Mas às vezes eu esquecia disso. Tinha para mim que éramos íntimos, até porque eu conhecia cada detalhe de sua vida – por meio de suas redes sociais, é claro. Eu sabia quem eram seus melhores amigos e o tipo de relação que ele tinha com cada um deles. Sabia onde ele havia comemorado seus últimos três aniversários e sinto como se eu quase pudesse adivinhar as músicas de sua playlist favorita.

Só que ontem me deparei com a realidade: a beleza que atribuo ao garoto existe pela simples noção da impossibilidade do abstrato ser concreto. Nunca irei abordá-lo, pois nunca abordo ninguém. Crio esta espécie de paixão não pelo alvo, mas pela ruminação.

Hoje não acredito que haja beleza neste mundo,
muito menos há esperança.

Aquela beleza que enxergávamos no amor
foi substituída pela certeza de que, na verdade,
ama-se perdidamente aquilo que é abstrato
e repudia-se sumariamente aquilo que é concreto.​

as palavras que guardei pra lhe dizer foram gastas num poema

as palavras que guardei pra lhe dizer,
foram gastas num poema.
por isso, agora me calo,
me debruço nas colunas de jornal,
procurando palavras bonitas
para dizer que fui eu que inventei.

Poeta é um ser fraco:
lamenta pelo passado,
sofre com o presente
e o futuro é a data do suicídio.

mas a vida do poeta é isso:
a capacidade de recitar asneiras
e a mediocridade de as separar em estrofes.

Qual a estação em que a vida acena e vai embora?
lembre-a de trancar as portas, apagar a luz,
colocar um casaco e ir andando sem olhar pra trás.

(10/03/2015, 03:32)

no cortiço da esquina moram três senhoras

no cortiço da esquina moram três senhoras:
a primeira chamaram Solitude,
e assim ainda a chamam
por ser tão só e tão carente,
abastada apenas de apatia.

A segunda se chama Aurora;
em verdade, nunca soube muito sobre esta.
No dia em que a trouxeram, anos atrás,
pediram para dela cuidar,
mas não contaram
que eu nunca mais a veria.
(ela se escondeu na primeira vista,
foi às sombras e nunca retornou)

A terceira é minha predileta,
promíscua e hipocondríaca,
chamei-a Melancolia,
– não paga sua estadia
mas também não a cobro
por já sofrer demais

diante do espelho ajoelhado
observo cada uma delas
confesso meus pecados
reconheço a pequenez das coisas
me lembro da vista da sacada
e salto ao reparar que sou elas

(26/08/2014)

já não sou mais um poeta

amigo, já não sou mais um poeta

meus ordinários métodos de escrita já não surpreendem ninguém
minhas vivências e capacidades cognitivas são abaixo da média
minhas dores não conseguem mais fluir em palavras
as palavras não demonstram dor alguma.

em muito me assemelho à um suicida,
nunca a um poeta.

lembra-se de quando comentávamos sobre os rapazes bonitos que passavam no colégio?
tornaram-se drogados, anacrônicos e homofóbicos.
hoje não acredito que haja beleza neste mundo,
muito menos há esperança.

Aquela beleza que enxergávamos no amor
foi substituída pela certeza de que na verdade
ninguém ama ninguém
e amor é um desvio na interpretação da realidade.

(03/04/2014)

se o amor é o beijo, o afago e a carne

Se o amor é o beijo, o afago e a carne,
o mórbido sentimento que cultivo não é amor.

Se o amor é o beijo, o afago e a carne,
para este te preciso.

Em verdade, é o meu constante desejar
que, por natureza, é unilateral
e estúpido.

(Há algumas centenas de metros durmo longe de ti todas as noites e tortura-me saber que a qualquer momento poderia levantar e correr os minutos que separam nossos corpos)

(25/10/2013)

já não tenho mais talentos

(01/03/2013)

Já não tenho mais talentos,
desaprendi o que é amar,
agora só me resta os tormentos,
e a vontade de te amar

De todos os teus beijos,
o melhor foi o primeiro,
senti que era infinito,
senti que era o principio
Mas pra mim tudo é assim,
felicidade tem seu fim

Já não tenho mais talentos,
desaprendi o que é sonhar
agora só me resta pesadelos
e a vontade de te amar.