esquizofrenia por um mês, esquizofrenia mais uma vez

minha velha louca amiga
irmã da dor e da loucura
esquizofrenia por um mês
esquizofrenia mais uma vez

minha realidade única e depravada
meu pensamento confuso e nada claro
minha expressão social contida
meu desejo sexual impulsivo e reprimido

meu delírio que conspira
as câmeras escondidas
os vizinhos que observam
meus erros insignificantes

minha velha louca amiga
meu distúrbio social
comportamento fora do normal

esquizofrenia por um mês
esquizofrenia mais uma vez

(06/09/2017)

a porta e as dobradiças

observando a porta do meu quarto, percebi que suas dobradiças estavam enferrujadas por tantos anos terem passado sem que nenhum corpo ousasse tocá-la.

mas um dia a porta ainda seria aberta,
suas dobradiças dobrariam
a ferrugem dobraria
a porta dobraria
a maçaneta dobraria

alguém entraria

e verificaria
__________meu corpo já gelado
_______________observando as dobradiças
____________________da porta que abriria

Chamo de lágrimas as gotas inúteis

Chamo de lágrimas
as gotas inúteis
que caem das nuvens
e afogam o céu.

E escorrem nos muros,
muros de pedra,
que separam espaços
que dividem abraços
que destroem os laços
e expõe os fracassos.

Sei que por vezes sonhas com relvas,
onde habitas cada espaço,
e todos os espaços são teus.

Mas os sonhos são poemas
escritos por criança,
interpretados com descrença,
esquecidos na dispensa.

E então o homem se fez fracasso:
inventou novos pecados,
fez dos semelhantes seus escravos,
sabotou seus próprios passos.


Não chores, meu rapaz,
tu és apenas réu primário
de um mundo precário
– o mundo é esperto,
nos tortura desde feto,
nos caduca até a morte,
sem nos dar a chance de ser forte.

Já devias saber que a vida é isso:
é viver pra querer morrer,
e morrer sem saber porque viveu.

(24/10/2015)

na data do meu velório

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz. Por nunca mais precisar ouvir a voz humana, nada jamais voltará a atormentar meu espírito.

Aqueles que forem vestidos de preto acompanhar o sepultamento do meu cadáver serão os últimos a prestar desonra e a me causar angústias. Isto, pois não há verdade alguma em rituais milenares, e pouco me interessa a metafísica a qual eles se agarram. A pura construção dos ritos de luto me causa enjoo e vômito – no dia seguinte à minha morte, a vida seguirá com as mesmas vozes igualmente inúteis.

Quando minha única companhia for aquela oferecida pelos vermes dentro do caixão, estes saberão que a carne que comem é carne e nada mais. Ao contrário do que os medíocres sempre tentaram me fazer acreditar, nunca cri em metafísica que justificasse a essência superior de qualquer matéria sobre outra. A essência das coisas nunca teve seu valor definido pelo quanto sua definição é repetida pelas sociedades humanas e suas crenças perfunctórias.

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz.

(01/09/2015, 17:12)

Na noite em que foste embora, havia um cadáver no meu quarto

(17/08/2015, 01:52)

Na noite em que foste embora, havia um cadáver no meu quarto, e o cadáver era meu. Sim, cadáver, pois minhas mãos frias, ainda que imbuídas de circulação sanguínea, já não ofereceriam afago para nenhum rosto, e meus olhos há muito já não conseguem demonstrar vida ou interesse.

Estou vivo e estou morto e há muito tempo sinto que em mim não há mais vida. Pois aquilo que é imbuído de uma mecânica inerte de funcionamento de glóbulos vermelhos e batimentos cardíacos não basta para dizer que “está vivo”.

É necessário mais. E percebo que não tenho mais. Minhas habilidades artísticas, de expressão e a poesia, estão em decadência. Não tenho sonhos que sejam maiores que a vontade de estar na cama e chorar. Chorar, pois quando não há gana por algo, resta a melancolia.

esta espécie de paixão

(06/07/2015, 04:41)

Ao rapaz bonito que entrava na sala, eu acenava. Acenava todos os dias. Acenava não com as mãos, mas com um embaraçoso movimento com a cabeça, que às vezes era acompanhado por um sorriso sem jeito. Meus olhos fitavam os dele por qualquer chance de contato visual – que nunca ocorria. E a cada aceno ignorado, eu me apaixonava.

É verdade, nunca nos falamos. Mas às vezes eu esquecia disso. Tinha para mim que éramos íntimos, até porque eu conhecia cada detalhe de sua vida – por meio de suas redes sociais, é claro. Eu sabia quem eram seus melhores amigos e o tipo de relação que ele tinha com cada um deles. Sabia onde ele havia comemorado seus últimos três aniversários e sinto como se eu quase pudesse adivinhar as músicas de sua playlist favorita.

Só que ontem me deparei com a realidade: a beleza que atribuo ao garoto existe pela simples noção da impossibilidade do abstrato ser concreto. Nunca irei abordá-lo, pois nunca abordo ninguém. Crio esta espécie de paixão não pelo alvo, mas pela ruminação.

Hoje não acredito que haja beleza neste mundo,
muito menos há esperança.

Aquela beleza que enxergávamos no amor
foi substituída pela certeza de que, na verdade,
ama-se perdidamente aquilo que é abstrato
e repudia-se sumariamente aquilo que é concreto.​

as palavras que guardei pra lhe dizer foram gastas num poema

as palavras que guardei pra lhe dizer,
foram gastas num poema.
por isso, agora me calo,
me debruço nas colunas de jornal,
procurando palavras bonitas
para dizer que fui eu que inventei.

Poeta é um ser fraco:
lamenta pelo passado,
sofre com o presente
e o futuro é a data do suicídio.

mas a vida do poeta é isso:
a capacidade de recitar asneiras
e a mediocridade de as separar em estrofes.

Qual a estação em que a vida acena e vai embora?
lembre-a de trancar as portas, apagar a luz,
colocar um casaco e ir andando sem olhar pra trás.

(10/03/2015, 03:32)

existe um espaço vazio na minha memória

existe um espaço vazio na minha memória
que reconheço tratar-se dos anos de abuso
que me cegaram e apresentaram um mundo amargo

e por isso só me recordo dos gritos
dos olhares de reprovação
das portas batendo
das palavras cortadas

ainda levo a culpa que me entregaram
mesmo que a negue, ainda a levo

e a carregarei nos ombros até o fim,
e depois do fim permanecerão estes versos
vulgarizando pelos séculos
e pelas civilizações futuras
a culpa que me entregaram
e meu ressentimento tácito
eternizando a remissão que nunca hei de conceder

no cortiço da esquina moram três senhoras

no cortiço da esquina moram três senhoras:
a primeira chamaram Solitude,
e assim ainda a chamam
por ser tão só e tão carente,
abastada apenas de apatia.

A segunda se chama Aurora;
em verdade, nunca soube muito sobre esta.
No dia em que a trouxeram, anos atrás,
pediram para dela cuidar,
mas não contaram
que eu nunca mais a veria.
(ela se escondeu na primeira vista,
foi às sombras e nunca retornou)

A terceira é minha predileta,
promíscua e hipocondríaca,
chamei-a Melancolia,
– não paga sua estadia
mas também não a cobro
por já sofrer demais

diante do espelho ajoelhado
observo cada uma delas
confesso meus pecados
reconheço a pequenez das coisas
me lembro da vista da sacada
e salto ao reparar que sou elas

(26/08/2014)

mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo do coração aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria

e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(17/07/2014)

já não sou mais um poeta

amigo, já não sou mais um poeta

meus ordinários métodos de escrita já não surpreendem ninguém
minhas vivências e capacidades cognitivas são abaixo da média
minhas dores não conseguem mais fluir em palavras
as palavras não demonstram dor alguma.

em muito me assemelho à um suicida,
nunca a um poeta.

lembra-se de quando comentávamos sobre os rapazes bonitos que passavam no colégio?
tornaram-se drogados, anacrônicos e homofóbicos.
hoje não acredito que haja beleza neste mundo,
muito menos há esperança.

Aquela beleza que enxergávamos no amor
foi substituída pela certeza de que na verdade
ninguém ama ninguém
e amor é um desvio na interpretação da realidade.

(03/04/2014)

cianeto no café da manhã de velhinhas inocentes

Quis notar as praias francesas
antes que explodi-las tornasse mais interessante.

Tive vontade de colocar cianeto
no café da manhã de velhinhas inocentes
antes que, ao fim da vida,
elas notassem o que era o grande mundo.

E ao respirar a fumaça do intemperismo social,
tive vontade de destruir tudo aquilo que era mais belo
que a vista da minha sacada.

(17/11/2013)

é preciso reconhecer a pequenez dos prédios e edifícios

Às vezes, sei que a vida é isso:
é habitar as ruas e avenidas,
e no cimento rastejar;
é se apegar aos bons rapazes,
e sem eles, se afogar;
é usar calças pretas
e estar bêbado de amar;
é preciso reconhecer a pequenez dos prédios e edifícios,
mas ainda assim é necessário subir-los e avistar o mundo;
é preciso conhecer os homens e suas diferentes dores
e senti-las antes de morrer;
é preciso notar a cidade
e respirar o carbono dos carros e locomotivas.

(31/10/2013)

sinto-me abraçado à hélices

Sinto-me abraçado à hélices,
que me rasgam, dilaceram,
e me dividem em pedaços
incontáveis e desprezíveis
acordando-me aos prantos
para outro dia.

Sinto-me abraçado à hélices,
que giram e rasgam,
e giram, me cortam,
espalhando meu sangue
nestas manchas do colchão

Histérico e inútil,
com perguntas sem sentido
declaro culpados todos os singulares instantes
que impetuosamente estão instalados
entre hoje e o suicídio

os instantes foram criados para serem sofridos
e por isso os sofro agarrado às hélices
que me rasgam, dilaceram,
me rasgam, me cortam

(30/10/2013)

se o amor é o beijo, o afago e a carne

Se o amor é o beijo, o afago e a carne,
o mórbido sentimento que cultivo não é amor.

Se o amor é o beijo, o afago e a carne,
para este te preciso.

Em verdade, é o meu constante desejar
que, por natureza, é unilateral
e estúpido.

(Há algumas centenas de metros durmo longe de ti todas as noites e tortura-me saber que a qualquer momento poderia levantar e correr os minutos que separam nossos corpos)

(25/10/2013)

o próximo movimento punk será antinatalista

o próximo movimento punk será antinatalista. a perpetuação da espécie estará terminantemente proibida. a procriação será vista como o maior tabu da sociedade.
pequenas comunidades rurais aos poucos se tornarão regra. estas se organizarão de forma que nossos espécimes vivam até a meia idade, de forma que a velhice nunca chegue antes da morte.
sadiamente viverão até os quarenta anos, quando já não há mais nada a conquistar.
o ato heroico de suicídio será amplamente reconhecido por sua natureza filantrópica.
a luz que os mortos enxergam será a luz que guia os dias.
velórios serão rotina, que de bom grado serão felicitados diariamente.
paradas cardíacas serão sorteadas na loteria.
os últimos desta espécie serão consumidos pelos lobos ou cachorros.
as baratas proliferarão pelos edificamentos urbanos
e a paz estará estabelecida.

Os seres existem, se esbarram e vão ao trabalho.

Os seres existem, se esbarram e vão ao trabalho.

Pois o que é mais,
o que sorri,
o que pensa,
este não é o ser,
este é o bêbado com seu cigarro.

E é por isso que eu sei,
que o humano nasce bêbado
e a metafísica é a ressaca.

Os seres existem, fumam ópio e suicidam.

(19/05/2013)

subterfúgio de tristeza

(15/03/2013)

os cortes, o sangue e a dor
são nada, quiçá um atalho,
subterfúgio de tristeza,
ao ponto que, se não é final,
é o início.

Minha vil amarga sina,
minha busca por escape,
das misérias é a predileta.

Pérfida e molesta arte,
como-te nua, então mitiga,
mas sempre retorna
a me seduzir e causar dor.

E esse pleno receio lastimoso
não previne as noites de corte,
pois a conclusão não impede a razão,
que é indubitável como a dor
dos céticos inocentes
culpados pelo amor.

já não tenho mais talentos

(01/03/2013)

Já não tenho mais talentos,
desaprendi o que é amar,
agora só me resta os tormentos,
e a vontade de te amar

De todos os teus beijos,
o melhor foi o primeiro,
senti que era infinito,
senti que era o principio
Mas pra mim tudo é assim,
felicidade tem seu fim

Já não tenho mais talentos,
desaprendi o que é sonhar
agora só me resta pesadelos
e a vontade de te amar.