o ponteiro do relógio da existência

o ponteiro do relógio da existência
cansou de ser apenas ponteiro
– queria ser o tempo, ele próprio.

(Pois o tempo é dimensão,
e a técnica de medi-lo é outra estória)

o tempo que passa e é percebido pelo ponteiro do relógio
é quiçá apenas comparação espacial de percepção neuronal.

mas o tempo, ele próprio,
se pauta pela angústia,
pela decadência das sociedades,
pela diferentes dores que sofrem os animais humanos e não humanos
e pela morbidez dos átomos que compõem qualquer matéria

A existência é única e comungada.
– a existência humana, dos ratos,
dos macacos, dos vermes e das bactérias –
todas elas uma só.

Há milhões de anos-luz, a direita ou esquerda da terra,
sistemas conscientes talvez vivos ou não vivos
também questionam-se sobre diferentes
prováveis sistemas conscientes vivos ou não vivos.

Talvez providos de capacidade neuronal superior,
entendem o tempo metafísico como sendo físico –
e nele se deslocam através de máquinas
movidas a angústia ou qualquer outro metafisicismo.

e vislumbram a decadência dos diferentes povos
do nosso planeta e de muitos outros,
da espécie humana e das baratas.

(31/05/2015)

 

a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)

Na casa antiga ao fim da rua, 

Na casa antiga ao fim da rua,
eu crescia e me reprimia
com sonhos que não eram meus
e inseguranças que ainda levo.

No quarto do segundo andar,
desde tão criança eu sofria
de ansiedade e depressão
e escondia doces no armário
pra quando a dor chegasse
não fosse maior fardo
que os quilos que ganhava.

Eu era criança angustiada e maníaca
com compulsão por simetria e comida
e me escondia dos olhares dos adultos
com medo de ser declarado impuro.

Na casa antiga ao fim da rua,
eu era criança maníaca
e a vista da janela
era uma piscina sempre vazia.

nem por isso o mundo parou

certamente nunca te contaram,
mas felicidade é tristeza com propósito
e tristeza é entender a mecânica da vida
e notar a grande náusea dos dias marginais.

tristeza é rascunho em branco,
com sentimentos a preencher

felicidade é preenchimento automático
ditado por ideais alheios, nunca os seus

observe: não estou a defender nenhuma causa,
mas sabes que os meio-sorrisos dos dias cinzas
contêm mais metafísica que os sorrisos abertos de euforia

e caso esteja pensando em apontar um paradoxo,
o paradoxo também te aponta,
e nem por isso o mundo parou
ou deixou de ter propósito
– ainda que triste.

eu não sei sorrir

eu não sei sorrir
mas eu sorrio
quando na rua me perguntam as horas
quando os carros param na faixa e eu atravesso
quando na padaria perguntam se quero mais algo

eu não sou feliz
mas há instantes em que posso jurar
que um poeta vai me convencer
que existe um sentido intrínseco nas coisas
e que essa equação se fechará sozinha

(15/10/2018)

repare que a vida é memória, e memórias são mentiras

repare que a vida é memória,
e memórias são mentiras
contadas por nós mesmos,
na esperança de um sentido
para a anarquia da vida

repare que não há alma ou um pós-vida,
que a existência é um desvio padronizado
de átomos leigos e ineptos,
ignorantes de si – pois não há um si –

repare que, como a vida, ao fim dos dias não há luz,
como ao fim do túnel nas parábolas urbanas.

somos matéria e nada além
e a metafísica é um jogo
de distração e esquizofrenia
que jogamos sozinhos em conjunto

os cômodos continuam vazios

Abro a porta apenas para reparar que os cômodos continuam vazios.
Penso que se houvesse mais alguém por aqui, a estrutura da casa entraria em colapso pela novidade de um corpo estranho.
– talvez a formação de uma supernova ou buraco negro
ou outro desses fenômenos para mim inexplicáveis.

Mas talvez seja isto que espero,
talvez por isto insisto em comprar sempre o dobro de tudo
o dobro de remédios
o dobro de comida
o dobro de cigarros
o dobro de veneno de formiga
e uso todos.
– penso que talvez assim a casa possa ir se acostumando caso algum dia alguém queira saber mais que o meu nome
ou me pergunte na rua algo mais que o horário.

(Uns dias atrás quando abri a janela, percebi um vulto preto que me acompanhava pelo chão e parecia tentar repetir meus movimentos de maneira ágil porém um tanto que deformada. Algumas vezes ele aparecia pelas paredes. Ele está sempre comigo desde então, seus pés são os meus pés e estamos sempre juntos. Mantenho a janela aberta esperando por mais sombras que não a minha.)

(25/05/2016)

A náusea é um poema

A náusea é um poema
pregado muito fundo
com prego enferrujado:
como vacina de esperança,
lhe apresenta o mundo
mostrando o pior.

A civilização é uma estrofe,
que lhe causa vômito e enjoo,
como um grito de declame,
agudo, nunca findo,
que caduca muito estreita
entre o homem e o devaneio.

E entre estrofes há um universo:
a espera por um conforto que não virá;
as conquistas regredidas;
a esperança transformada em pó;
os segundos perdidos de uma vida;
o suspiro de desesperança;

Então na vida identifico o poeta:
músicos surdos,
pintores daltônicos,
escritores disléxicos,
floristas alérgicos;

E em cada um destes
me apego, me agarro,
tentando entender a náusea da civilização.

(10/11/2015)

a porta e as dobradiças

observando a porta do meu quarto, percebi que suas dobradiças estavam enferrujadas por tantos anos terem passado sem que nenhum corpo ousasse tocá-la.

mas um dia a porta ainda seria aberta,
suas dobradiças dobrariam
a ferrugem dobraria
a porta dobraria
a maçaneta dobraria

alguém entraria

e verificaria
__________meu corpo já gelado
_______________observando as dobradiças
____________________da porta que abriria

Chamo de lágrimas as gotas inúteis

Chamo de lágrimas
as gotas inúteis
que caem das nuvens
e afogam o céu.

E escorrem nos muros,
muros de pedra,
que separam espaços
que dividem abraços
que destroem os laços
e expõe os fracassos.

Sei que por vezes sonhas com relvas,
onde habitas cada espaço,
e todos os espaços são teus.

Mas os sonhos são poemas
escritos por criança,
interpretados com descrença,
esquecidos na dispensa.

E então o homem se fez fracasso:
inventou novos pecados,
fez dos semelhantes seus escravos,
sabotou seus próprios passos.


Não chores, meu rapaz,
tu és apenas réu primário
de um mundo precário
– o mundo é esperto,
nos tortura desde feto,
nos caduca até a morte,
sem nos dar a chance de ser forte.

Já devias saber que a vida é isso:
é viver pra querer morrer,
e morrer sem saber porque viveu.

(24/10/2015)

na data do meu velório

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz. Por nunca mais precisar ouvir a voz humana, nada jamais voltará a atormentar meu espírito.

Aqueles que forem vestidos de preto acompanhar o sepultamento do meu cadáver serão os últimos a prestar desonra e a me causar angústias. Isto, pois não há verdade alguma em rituais milenares, e pouco me interessa a metafísica a qual eles se agarram. A pura construção dos ritos de luto me causa enjoo e vômito – no dia seguinte à minha morte, a vida seguirá com as mesmas vozes igualmente inúteis.

Quando minha única companhia for aquela oferecida pelos vermes dentro do caixão, estes saberão que a carne que comem é carne e nada mais. Ao contrário do que os medíocres sempre tentaram me fazer acreditar, nunca cri em metafísica que justificasse a essência superior de qualquer matéria sobre outra. A essência das coisas nunca teve seu valor definido pelo quanto sua definição é repetida pelas sociedades humanas e suas crenças perfunctórias.

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz.

(01/09/2015, 17:12)

Na noite em que foste embora, havia um cadáver no meu quarto

(17/08/2015, 01:52)

Na noite em que foste embora, havia um cadáver no meu quarto, e o cadáver era meu. Sim, cadáver, pois minhas mãos frias, ainda que imbuídas de circulação sanguínea, já não ofereceriam afago para nenhum rosto, e meus olhos há muito já não conseguem demonstrar vida ou interesse.

Estou vivo e estou morto e há muito tempo sinto que em mim não há mais vida. Pois aquilo que é imbuído de uma mecânica inerte de funcionamento de glóbulos vermelhos e batimentos cardíacos não basta para dizer que “está vivo”.

É necessário mais. E percebo que não tenho mais. Minhas habilidades artísticas, de expressão e a poesia, estão em decadência. Não tenho sonhos que sejam maiores que a vontade de estar na cama e chorar. Chorar, pois quando não há gana por algo, resta a melancolia.

subterfúgio de tristeza

(15/03/2013)

os cortes, o sangue e a dor
são nada, quiçá um atalho,
subterfúgio de tristeza,
ao ponto que, se não é final,
é o início.

Minha vil amarga sina,
minha busca por escape,
das misérias é a predileta.

Pérfida e molesta arte,
como-te nua, então mitiga,
mas sempre retorna
a me seduzir e causar dor.

E esse pleno receio lastimoso
não previne as noites de corte,
pois a conclusão não impede a razão,
que é indubitável como a dor
dos céticos inocentes
culpados pelo amor.

existe um espaço vazio na minha memória

existe um espaço vazio na minha memória
que reconheço tratar-se dos anos de abuso
que me cegaram e apresentaram um mundo amargo

e por isso só me recordo dos gritos
dos olhares de reprovação
das portas batendo
das palavras cortadas

ainda levo a culpa que me entregaram
mesmo que a negue, ainda a levo

e a carregarei nos ombros até o fim,
e depois do fim permanecerão estes versos
vulgarizando pelos séculos
e pelas civilizações futuras
a culpa que me entregaram
e meu ressentimento tácito
eternizando a remissão que nunca hei de conceder