a título de exemplo

Aprendi a assobiar mas não sei se prefiro minhas veias fechadas ou abertas.

Eu explico.

É que todo o pouco que sou soa como uma forjada pretensão – a título de exemplo, já ecoam estas linhas, que não são versos, mas versos se sentem. Como aquele que aprende assobiar, há quem aprenda entabular versos e creia que o universo lhe pinçou. E ao se perguntar sobre o porquê de ser o que é – mesmo que não o seja – e entender que é aquilo – que talvez não seja – por ter que haver um ser para cada o quê, surge a questão acerca daqueles que preferem as veias fechadas ou abertas.

a sombra do poeta

a sombra do poeta está sempre a consumir tudo que a toca
e a esgotar a alma de seus conhecidos
fazendo poesia de suas desgraças

a sombra do poeta nutre-se do mal-estar na civilização,
da ansiedade e do medo dos centros urbanos,
do carbono das locomotivas,
do suor nas interações sociais
e da saliva dos mortos suicidas

a miserável sombra do poeta
está sempre a consumir intemperismos
e convertê-los em desgraça maior,
sempre a arruinar tudo que seja mais belo
que a penumbra de sua caneta

e mesmo que toda a dor jorrasse de uma só vez,
escorrendo das veias aos dedos e dos dedos à caneta,
da caneta não passaria
e os versos jamais seriam escritos,
pois já não sou nem a sombra do poeta
que se escondia na penumbra da caneta
quando os versos eram sinceros

(14/12/2015-22/10/2018)

repare que a vida é memória, e memórias são mentiras

repare que a vida é memória,
e memórias são mentiras
contadas por nós mesmos,
na esperança de um sentido
para a anarquia da vida

repare que não há alma ou um pós-vida,
que a existência é um desvio padronizado
de átomos leigos e ineptos,
ignorantes de si – pois não há um si –

repare que, como a vida, ao fim dos dias não há luz,
como ao fim do túnel nas parábolas urbanas.

somos matéria e nada além
e a metafísica é um jogo
de distração e esquizofrenia
que jogamos sozinhos em conjunto

os cômodos continuam vazios

Abro a porta apenas para reparar que os cômodos continuam vazios.
Penso que se houvesse mais alguém por aqui, a estrutura da casa entraria em colapso pela novidade de um corpo estranho.
– talvez a formação de uma supernova ou buraco negro
ou outro desses fenômenos para mim inexplicáveis.

Mas talvez seja isto que espero,
talvez por isto insisto em comprar sempre o dobro de tudo
o dobro de remédios
o dobro de comida
o dobro de cigarros
o dobro de veneno de formiga
e uso todos.
– penso que talvez assim a casa possa ir se acostumando caso algum dia alguém queira saber mais que o meu nome
ou me pergunte na rua algo mais que o horário.

(Uns dias atrás quando abri a janela, percebi um vulto preto que me acompanhava pelo chão e parecia tentar repetir meus movimentos de maneira ágil porém um tanto que deformada. Algumas vezes ele aparecia pelas paredes. Ele está sempre comigo desde então, seus pés são os meus pés e estamos sempre juntos. Mantenho a janela aberta esperando por mais sombras que não a minha.)

(25/05/2016)

A náusea é um poema

A náusea é um poema
pregado muito fundo
com prego enferrujado:
como vacina de esperança,
lhe apresenta o mundo
mostrando o pior.

A civilização é uma estrofe,
que lhe causa vômito e enjoo,
como um grito de declame,
agudo, nunca findo,
que caduca muito estreita
entre o homem e o devaneio.

E entre estrofes há um universo:
a espera por um conforto que não virá;
as conquistas regredidas;
a esperança transformada em pó;
os segundos perdidos de uma vida;
o suspiro de desesperança;

Então na vida identifico o poeta:
músicos surdos,
pintores daltônicos,
escritores disléxicos,
floristas alérgicos;

E em cada um destes
me apego, me agarro,
tentando entender a náusea da civilização.

(10/11/2015)

atravessando ruas de olhos fechados

andava pelas ruas desejando o impacto dos ônibus
atravessando ruas de olhos fechados
e desejando meu último instante

hoje, algo mudou.
descobri que todos os instantes são os últimos
e sinto o impacto dos ônibus a cada segundo
com os olhos fechados ou abertos

e que não há saída para o mal-estar na civilização

a porta e as dobradiças

observando a porta do meu quarto, percebi que suas dobradiças estavam enferrujadas por tantos anos terem passado sem que nenhum corpo ousasse tocá-la.

mas um dia a porta ainda seria aberta,
suas dobradiças dobrariam
a ferrugem dobraria
a porta dobraria
a maçaneta dobraria

alguém entraria

e verificaria
__________meu corpo já gelado
_______________observando as dobradiças
____________________da porta que abriria

na data do meu velório

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz. Por nunca mais precisar ouvir a voz humana, nada jamais voltará a atormentar meu espírito.

Aqueles que forem vestidos de preto acompanhar o sepultamento do meu cadáver serão os últimos a prestar desonra e a me causar angústias. Isto, pois não há verdade alguma em rituais milenares, e pouco me interessa a metafísica a qual eles se agarram. A pura construção dos ritos de luto me causa enjoo e vômito – no dia seguinte à minha morte, a vida seguirá com as mesmas vozes igualmente inúteis.

Quando minha única companhia for aquela oferecida pelos vermes dentro do caixão, estes saberão que a carne que comem é carne e nada mais. Ao contrário do que os medíocres sempre tentaram me fazer acreditar, nunca cri em metafísica que justificasse a essência superior de qualquer matéria sobre outra. A essência das coisas nunca teve seu valor definido pelo quanto sua definição é repetida pelas sociedades humanas e suas crenças perfunctórias.

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz.

(01/09/2015, 17:12)

Na noite em que foste embora, havia um cadáver no meu quarto

(17/08/2015, 01:52)

Na noite em que foste embora, havia um cadáver no meu quarto, e o cadáver era meu. Sim, cadáver, pois minhas mãos frias, ainda que imbuídas de circulação sanguínea, já não ofereceriam afago para nenhum rosto, e meus olhos há muito já não conseguem demonstrar vida ou interesse.

Estou vivo e estou morto e há muito tempo sinto que em mim não há mais vida. Pois aquilo que é imbuído de uma mecânica inerte de funcionamento de glóbulos vermelhos e batimentos cardíacos não basta para dizer que “está vivo”.

É necessário mais. E percebo que não tenho mais. Minhas habilidades artísticas, de expressão e a poesia, estão em decadência. Não tenho sonhos que sejam maiores que a vontade de estar na cama e chorar. Chorar, pois quando não há gana por algo, resta a melancolia.